03 — Inventário, portfólio e valor¶
Visão geral¶
Antes de governar agentes, a organização precisa responder três perguntas básicas:
- O que existe? — Quais agentes, assistentes e automações baseadas em IA já operam (inclusive aqueles que ninguém oficialmente conhece)?
- Quem responde por isso? — Qual pessoa é responsável por cada ativo, em todos os momentos do ciclo de vida?
- Vale a pena? — Cada agente está conectado a um problema real, com evidência de valor, ou é só custo e risco acumulado?
Este capítulo constrói a resposta na mesma ordem: descoberta e inventário (o que existe), registry e ownership (quem responde) e portfólio e valor (vale a pena continuar, expandir ou aposentar).
O princípio que amarra tudo: sem visibilidade não há governança. É impossível aplicar tier, evidência, contenção ou sunset a um ativo que a organização não sabe que existe.
1. Conhecer o que existe: descoberta e inventário¶
1.1 Descoberta é disciplina contínua, não projeto pontual¶
Uma organização que "começa do zero" raramente começa com zero agentes. Ela começa com baixa visibilidade. O agent estate muda mais rápido que um inventário tradicional: agentes nascem de usuários, SaaS, low-code, IDEs, automações e código. Um inventário pontual fica obsoleto em semanas.
O baseline (primeira foto do estado atual) é o ponto de partida; a capacidade contínua de descobrir é o produto. A descoberta deve rodar por múltiplas fontes reconciliadas, com cadência de redescoberta preferencialmente automatizada.
1.2 Fontes de descoberta¶
Nenhuma fonte isolada é suficiente. A cobertura vem da correlação, e a correlação exige um schema mínimo comum.
| Fonte | O que procurar | Limitação típica | Como compensar |
|---|---|---|---|
| builders e low-code | agentes, apps, owners, status de publicação | não cobre agentes custom | correlacionar com repositórios e gateways |
| IAM e identidades não humanas | service principals, workload identities, secrets | a identidade pode não indicar que é agente | usar convenção de nomes, tags e telemetria de API |
| gateways de modelo e API | chamadas de modelo, chaves, metadados de ator | apenas o tráfego que passa pelo gateway | combinar com egress/proxy e dados de despesa |
| código-fonte e CI/CD | SDKs de agente, clientes de modelo, configurações MCP | protótipos locais podem não aparecer | survey com desenvolvedores e scanning de artefatos |
| inventário de SaaS e compras | produtos com recursos agentic | recurso licenciado pode não estar em uso | validar uso real e logs administrativos |
| rede e egress | destinos de APIs de modelo e endpoints MCP | baixa semântica | usar apenas como sinal de agente suspected |
1.3 Status de confirmação e confidence: dois campos, duas perguntas¶
Dois campos diferentes evitam inflar métricas e descartar sinais de shadow AI:
discovery.statusdescreve o quanto a existência e o contexto do agente foram confirmados;discovery.confidenceexpressa a confiança na correlação dos sinais disponíveis.
| Status | Significado | Ação |
|---|---|---|
confirmed |
evidência direta do agente e do seu contexto | registrar e atribuir owner |
probable |
múltiplos sinais apontam para uso agentic, sem confirmação | investigar dentro do SLA definido |
suspected |
indício isolado que merece verificação | manter no backlog de remediação |
| Confidence | Uso |
|---|---|
high |
sinais independentes coerentes e recentes |
medium |
evidência útil com gap conhecido de cobertura ou contexto |
low |
sinal fraco, antigo ou ainda não reconciliado |
Objetos incertos não são descartados. Eles entram no backlog com owner e prazo — descartar sinais incertos para não "poluir" a métrica é a forma mais rápida de cegar a governança.
1.4 Shadow AI e ativos sem owner¶
Ativos sem owner ou shadow (criados fora dos processos corporativos) entram em contenção e resolução de ownership — não são silenciosamente aceitos no inventário. Um agente descoberto sem owner recebe status unmanaged e entra em remediação.
Armadilha comum: tratar o baseline como conclusão em vez de ponto de partida, ou contar versões e instâncias como agentes distintos (o que infla o número real do estate).
1.5 Forecast do estate: dimensionar governança, não prometer números¶
O forecast serve para dimensionar a governança futura, não para prometer número exato. Passos:
- Definir baseline por população: agentes pessoais, de time, de processo, embarcados e de terceiros.
- Identificar drivers: usuários habilitados, builders disponíveis, templates, iniciativas estratégicas, novos SaaS e automações previstas.
- Criar cenários conservador, provável e acelerado em 6 e 12 meses.
- Projetar o mix de risco, não apenas o volume. Crescer de 1.000 para 5.000 agentes T1 não demanda o mesmo esforço que adicionar 100 agentes T3.
- Converter o forecast em volumes operacionais: attestations por mês, reviews T2/T3, incidentes esperados, identidades, registros de tools e volume de telemetria.
- Revisar trimestralmente com dados reais e ajustar capacidade de fóruns, automação e plataforma.
Exemplo de dimensionamento: se 5.000 usuários habilitados podem criar agentes e apenas 10% criarem 2 agentes cada, o estate potencial já ultrapassa 1.000 agentes — antes de qualquer iniciativa corporativa.
1.6 Registro de gargalos manuais¶
Backlog dos pontos onde a governança depende de trabalho humano repetitivo — insumo direto da decisão sobre o que virar policy-as-code:
| Atividade manual | Volume/mês | Lead time | Risco de automatizar | Decisão inicial |
|---|---|---|---|---|
| aprovar agente T1 somente leitura | 400 | 2 dias | baixo | automatizar com policy gate após calibração em cohort controlada |
| criar identidade de agente T2 | 40 | 4 dias | médio | workflow + API de IAM, mantendo caminho de exceção |
| revisar ferramenta privilegiada T3 | 5 | 5 dias | alto | manter decisão humana; automatizar o preparo da evidência |
A leitura correta: automatizar a preparação da evidência é quase sempre seguro; automatizar a decisão só quando a policy está estável.
2. Registry: a fonte corporativa de verdade¶
2.1 Quatro objetos distintos (não confundir)¶
| Objeto | Pergunta que responde | Natureza |
|---|---|---|
| Registry | qual agente é este, quem responde, qual tier, admissibilidade, stage e operational state? | fonte corporativa de identificação e correlação |
| Blueprint | como esta versão deve ser configurada e controlada? | especificação versionada do desired state |
| Policy/gate | a configuração e as evidências atendem às regras? | decisão automática ou semiautomática |
| Runtime/telemetria | o agente está operando conforme aprovado? | estado observado |
Confundir registry com blueprint produz o antipattern mais comum: um inventário que cresce sem nunca virar controle. O registry responde "o que existe e quem responde"; o blueprint responde "como esta versão deve funcionar"; o portfólio responde "isso deveria continuar existindo". São artefatos distintos e não devem ser fundidos.
2.2 Taxonomia corporativa: a linguagem comum do estate¶
Taxonomia é a linguagem de classificação do estate: características relativamente estáveis que fazem registry, scoring, policies, dashboards e lifecycle usarem os mesmos termos. Taxonomia não é risk tier — dois agentes podem ser transactional e receber tiers diferentes por operarem sobre dados, privilégios ou processos distintos.
| Dimensão | Categorias sugeridas | Por que muda a governança |
|---|---|---|
| origem | citizen, partnered, professional, fornecedor/SaaS | define suporte, SDLC e responsabilidade técnica |
| ownership | pessoal, time, processo de negócio, corporativo | muda attestation, JML, continuidade e retirada |
| alcance | usuário único, time, unidade, corporativo, externo/público | muda blast radius e necessidade de assurance |
| função | informacional, redação, transacional, autônomo | separa conteúdo de efeito colateral |
| autonomia | assistiva, sugestão, execução limitada, planejamento autônomo | direciona oversight, limites e controles de runtime |
| identidade | delegada, própria (NHI), compartilhada (proibida) | define accountability e padrão de autorização |
| dados | público, interno, confidencial, restrito/regulado | aciona controles de dados, privacidade e residency |
| tools | nenhuma, leitura, escrita, execução, privilegiada | direciona mediação, rollback e aprovação humana |
| runtime | SaaS, nuvem, on-premises, edge, híbrido | muda pontos de enforcement e ownership operacional |
| topologia | agente único, multiagente, delegação entre agentes | adiciona trust chain e requisitos de correlação |
| lifecycle | efêmero, do usuário, do time, corporativo | muda retenção, dormancy e sucessão |
Evite taxonomia baseada em produto ("agente da plataforma X"). O produto informa onde o agente foi construído, não o que ele pode fazer — e a taxonomia precisa sobreviver à troca de builder.
Como implementar: colete amostra representativa (citizen-built, SaaS, custom, ao menos um com execução de ferramentas); escolha apenas dimensões que alteram decisão, controle, métrica ou lifecycle; defina códigos canônicos com critério operacional (não percepção do builder); crie regras de normalização por plataforma; defina obrigatoriedade por tier (fast path de T1 deve minimizar input manual); classifique 20–30 casos e meça concordância entre avaliadores (divergência sistemática indica definição fraca, não avaliador fraco); implemente no registry, pre-screen, dashboards e blueprint — taxonomia que vive só em documento não gera governança.
2.3 Registry: capacidades mínimas e campos obrigatórios¶
O registry não precisa armazenar tudo — pode referenciar sources of truth existentes. O requisito é responder de forma consistente: qual agente é este, quem responde, qual tier e admissibilidade, qual lifecycle stage e operational state, quais identidades, tools, dados e modelos usa, e quando foi visto pela última vez.
| Grupo | Campos | Source of truth preferido |
|---|---|---|
| identidade do ativo | agent_id imutável, nome, versão, plataforma, ambiente |
registry/plataforma |
| ownership | business owner, technical owner, delegado, time/centro de custo | diretório organizacional + registry |
| governança | tier, admissibilidade, score, escaladores, decision/exception refs | sistema de risco |
| dependências | IDs de fontes de dados, tools, servidores MCP, modelos | catálogos + blueprint |
| runtime | ID de identidade, endpoint, perfil de telemetria, last_seen, budget |
IAM/plataforma/observabilidade |
| lifecycle | stage, operational state, transition history, próxima attestation, dormancy, retirada | serviço de lifecycle |
| valor | ID do caso de uso, KPI, status no portfólio, valor observado | portfólio |
Obrigatoriedade por tier:
| Campo | T1 | T2 | T3 | T4 |
|---|---|---|---|---|
| owner | obrigatório | dual (business + technical) | dual + delegado | sponsor executivo + owners accountable |
| tier e admissibilidade | ambos obrigatórios | ambos obrigatórios | ambos + reassessment | ambos + authority compatível; exceção somente se restricted |
| dados e tools | lista | lista + classificação | lista + constraints + evidência | constraints e lineage críticos completos |
| identidade | definida | identidade própria | identidade própria + policy reforçada | identidade dedicada, isolamento e dual control |
| observabilidade | padrão | completa | completa + baseline de comportamento | monitoramento e containment reforçados |
| attestation | periódica | periódica | frequente ou orientada a evento | orientada a evento e executive review |
O fast path de T1 existe para reduzir input manual em alto volume, não para dispensar registro: descoberta, owner, logging e fontes aprovadas continuam obrigatórios.
2.4 Regras de qualidade que geram finding¶
O registry só é controle quando detecta continuamente que deixou de representar a realidade. O objetivo não é ter uma lista perfeita. Findings típicos:
- owner inexistente ou inativo;
- tier ausente ou expirado após mudança material;
last_seenincompatível com o estado de lifecycle;- ferramenta ou fonte de dados referenciada que não existe no catálogo;
- agente em produção sem perfil de telemetria ou sem kill switch quando exigido;
- attestation vencida;
- identidade compartilhada entre múltiplos agentes T2/T3 sem exceção aprovada;
- agente descoberto sem owner — recebe status
unmanagede entra em remediação.
Reconciliação automatizada e manual detecta registros ausentes, obsoletos, duplicados e inválidos e bloqueia transições exigidas.
2.5 Blueprint machine-readable¶
O blueprint é o contrato entre design, desenvolvimento, governança, CI/CD e runtime. Machine-readable significa que os campos relevantes podem ser interpretados por automação para gerar policy checks, verificar o baseline do tier e comparar drift entre configuração aprovada e runtime. Isso não exige que toda a governança esteja em YAML: decisões narrativas, impact assessments e risk acceptance continuam como evidências referenciadas pelo blueprint. Os contratos canônicos são o Agent Registry schema e o Agent Blueprint schema.
Como implementar: defina primeiro o contrato lógico e apenas campos com consumidor real (schema grande sem consumidor é dívida); use formato versionável com validação por schema; associe o blueprint a agent_id + versão (alterar o blueprint não pode sobrescrever silenciosamente a evidência de releases anteriores); valide em build/release que IDs de fontes, tools e modelos existem em catálogos aprovados; use o blueprint para gerar ou verificar configuração; compare desired state com runtime observado (drift material produz finding e, se altera risco, reassessment); comece com dois ou três patterns e evolua o schema só com caso real.
2.6 Ownership e accountability¶
Cada ativo é vinculado a owners ativos de negócio, técnico e operacional, com regra de sucessão: identificadores de papel, data de aceite, delegados, unidade organizacional, status e evidência de detecção de órfãos. Saída ou inatividade do owner dispara redesignação, suspensão ou aposentadoria antes de o registro tornar-se órfão.
3. Decidir o que construir: intake e adequação¶
3.1 Intake de nova demanda¶
O ciclo começa antes de existir qualquer agente: capturar o problema, o mecanismo proposto, o owner e a necessidade de decisão antes de iniciar o design. O registro de intake inclui finalidade, baseline, usuários, pessoas afetadas, dados, ações, alternativas e urgência. A solicitação é encaminhada às decisões de adequação, risco e portfólio sem ignorar verificações de ownership ou escopo.
3.2 Adequação: agente é o mecanismo certo?¶
O primeiro gate não é "qual plataforma usar". É "precisamos mesmo de um agente?". Comportamento agentic aumenta variabilidade, custo de observabilidade e superfície de risco. Deve existir uma razão explícita para introduzir autonomia ou raciocínio probabilístico — registrada, não pressuposta. Processos determinísticos, estáveis e integralmente especificáveis costumam ser melhor atendidos por workflow, automação tradicional ou uma chamada de API.
Percorra a árvore na ordem — cada resposta muda o que precisa ser desenhado, não apenas o que precisa ser aprovado:
1. O problema exige interpretação de linguagem, contexto variável, planejamento ou seleção dinâmica de ferramentas? Se não — prefira solução determinística e registre a alternativa escolhida. Essa é uma decisão arquitetural legítima, não uma desistência.
2. A saída é apenas conteúdo ou pode gerar ação? Ação introduz exigências de autorização, rollback, trilha de auditoria e lifecycle que conteúdo não tem.
3. A ação é reversível? Irreversível ou material eleva o controle: avalie aprovação humana, step-up e circuit breaker antes de decidir a plataforma.
4. O agente acessará dados classificados? Confirme que a fonte está certificada ou registre a remediação antes do go-live, conforme o gate de dados.
5. Opera com usuário presente ou de forma autônoma? Isso decide identidade delegada versus identidade própria — e não pode ser decidido depois.
6. Há ferramentas, APIs ou servidores MCP? Classifique cada ação. O tier do agente não substitui a classificação da ferramenta.
7. O uso afeta pessoas, direitos, oportunidades, segurança física, processo regulado ou comunicação pública? Aciona o impact trigger screen e, quando aplicável, o impact assessment.
8. Onde cada controle vai residir? Management plane, gateway de runtime, broker de ferramentas, IAM, plataforma de dados, aplicação ou processo humano. Não concentre controle no prompt — prompt é instrução, não enforcement.
Exemplos de decisão:
| Caso | Decisão arquitetural | Por quê |
|---|---|---|
| assistente de conhecimento | recuperação somente leitura, identidade delegada, fontes certificadas, sem ferramenta de escrita | o valor vem de interpretação e recuperação; ação transacional seria risco sem benefício |
| agente de service desk | identidade própria, catálogo de ferramentas para criar e atualizar chamados, rollback e telemetria | há escrita reversível e operação multiusuário; a atribuição precisa sobreviver à ausência do usuário |
| agente de contas a pagar | identidade própria, broker de ferramentas, serviço de aprovação para pagamento, segregação de funções | o escalador financeiro impede execução autônoma irrestrita |
| agente de operações de produção | control plane de runtime, mediação de ferramenta privilegiada, remediações pré-aprovadas, circuit breaker | a ferramenta é mais crítica que o modelo; o comando precisa ser autorizado fora do modelo |
O último caso é o mais instrutivo: quando a ferramenta é privilegiada, a discussão sobre qual modelo usar é secundária. O controle está na autorização da ação, não na qualidade do raciocínio.
Onde registrar: a decisão vai no intake do caso de uso e, quando arquiteturalmente relevante, num ADR. Se a resposta for "não precisamos de agente", registre assim mesmo — decisão de não construir é a mais barata do portfólio e a que menos costuma ser documentada, o que faz a mesma discussão voltar seis meses depois.
3.3 Procurement e terceiros¶
Aplicar governança equivalente a agentes construídos, comprados, configurados, SaaS, low-code e operados por fornecedores: fornecedor, fronteira de serviço, deveres contratuais, evidências fornecidas, subprocessadores, direitos de saída, owner e lacunas não resolvidas. A terceirização não remove a accountability, e uma alegação de fornecedor sem evidência não pode satisfazer um controle bloqueante.
4. Medir e decidir valor: portfólio¶
4.1 Cadeia de valor: cada seta é uma hipótese¶
Problema observado
→ hipótese de intervenção
→ capability do agente
→ mudança de comportamento/processo
→ output mensurável
→ outcome
→ impacto, custo e efeitos colaterais
Cada seta é uma hipótese que precisa de evidência. Um bom output pode não gerar outcome; um outcome pode ter outras causas. Valor não pode ser inferido a partir de volume, uso ou narrativa de fornecedor.
4.2 Business case mínimo¶
- problema e população afetada;
- processo atual e baseline;
- alternativa não-IA;
- intended/prohibited use;
- business e technical owner;
- benefits esperados e harms possíveis;
- custos build/run/change/support/assurance;
- métricas de adoção, qualidade e outcome;
- condições para manter, expandir, corrigir ou aposentar;
- horizonte de revisão.
Hipótese mensurável: definir um resultado falseável, baseline pré-mudança e contrafactual crível com corte de evidências. Registrar owner da métrica, população, fórmula, alvo, fonte, confounders, custo e threshold de decisão. A authority precisa distinguir criação, adoção, qualidade e resultado — e poder interromper o trabalho quando a evidência não suporta expansão.
4.3 Métricas separadas: não agregue camadas em um "score"¶
| Camada | Exemplos |
|---|---|
| criação | agentes, versões, tempo de build |
| descoberta | busca, visualização, seleção correta |
| adoção | usuários ativos, recorrência, workflow integration |
| uso | tarefas, sessões, tool calls, volume |
| qualidade | task success, erro, safety, groundedness |
| eficiência | tempo/custo por tarefa com qualidade preservada |
| outcome | backlog reduzido, cycle time, disponibilidade, erro operacional |
| impacto | financeiro, humano, regulatório, ambiental ou estratégico |
Não agregue essas camadas em um único "AI adoption score" sem preservar significado. A medição de custo por resultado está em FinOps e unit economics; a separação entre KPI, KRI e métrica operacional está em KPIs, KRIs e governance dashboard.
4.4 Baseline e atribuição: não atribua o que você não mediu¶
- medir o processo antes ou reconstruir baseline com limitações declaradas;
- comparar grupos, períodos ou tarefas equivalentes quando possível;
- registrar outras mudanças que afetam o outcome;
- distinguir correlação de causalidade;
- incluir custo de revisão humana, suporte e incidentes;
- comunicar intervalo, incerteza e qualidade do dado.
4.5 Portfolio governance e value review¶
O artefato que carrega o portfólio é o Agent Use-Case Portfolio: use case, sponsor, owner, tier, admissibilidade, status, valor esperado, valor observado, custo e flag de duplicidade. Ele responde "isso deveria continuar existindo", enquanto o registry responde "o que existe e quem responde por isso".
Decisões de portfólio consideram: alinhamento estratégico; valor esperado e evidence strength; risco e residual impact; duplicidade e reuse; dependências e concentração; custo total e capacidade operacional; timing e reversibilidade; opportunity cost.
| Decisão | Condição típica |
|---|---|
| manter | outcome e risco dentro do envelope |
| expandir | evidência suficiente, controls escaláveis e demanda legítima |
| corrigir | valor plausível, mas quality/control gap tratável |
| restringir | risco ou incerteza exige menor scope |
| substituir | alternativa entrega melhor relação valor-risco-custo |
| aposentar | sem owner, sem uso, sem outcome ou risco/custo injustificável |
A priorização usa evidência de valor, risco, dependência, reuso e capacidade — não preferência do sponsor. A authority de portfólio consegue financiar, pausar, mesclar, restringir ou aposentar itens, e a decisão propaga-se aos registros de lifecycle.
4.6 Custo, consumo e FinOps¶
Atribuir consumo e custo operacional total a agente, owner, ambiente e resultado mensurável: custo unitário, orçamento, quota, previsão, variância, alocação de custo compartilhado, anomalia e decisão de otimização. Todo agente em produção (≥10 usuários) deve ter budget (cap) definido pelo business owner, com alertas e re-aprovação quando thresholds são excedidos; monitorar consumo (tokens, chamadas, minutos de GPU) e custo mensal; bloquear em caso de abuso/anomalia. Violação de threshold dispara throttling ou revisão. Alegações de custo permanecem separadas de alegações de realização de valor.
4.7 Adoção e utilização¶
Medir adoção pretendida, uso significativo e comportamento de workaround inseguro por população-alvo: população elegível, uso ativo, conclusão de tarefa, abandono, demanda de suporte, feedback e limitações de amostragem. O owner deve distinguir disponibilidade de adoção útil e poder mudar treinamento, design ou rollout com base em evidência.
Armadilha comum: premiar volume e criar agent sprawl; horas "economizadas" sem medir qualidade ou deslocamento de trabalho; manter agente porque já foi construído; ROI calculado com adoção projetada como fato.
5. Referência normativa¶
Condições mínimas que devem ser verdadeiras em cada ponto. Use como checklist de implementação e auditoria; as seções 1–4 explicam o porquê de cada item.
| # | Obrigação | Evidência mínima | Concluído quando |
|---|---|---|---|
| R1 | Descobrir ativos implantados, experimentais, embarcados e de fornecedores por múltiplas fontes reconciliadas | fonte de descoberta, última visualização, confiança, correspondência de owner, identidade não resolvida, status de remediação | ativos sem owner ou shadow entram em contenção e resolução de ownership |
| R2 | Operar o registry como índice autoritativo de identidade e lifecycle de todo agente em escopo | ID estável, owner, finalidade, tier, admissibilidade, versão, ambiente, estado, dependências, último attestation | reconciliação detecta registros ausentes/obsoletos/duplicados/inválidos e bloqueia transições exigidas |
| R3 | Vincular cada ativo a owners ativos (negócio, técnico, operacional) com regra de sucessão | identificadores de papel, data de aceite, delegados, unidade organizacional, status, detecção de órfãos | saída/inatividade do owner dispara redesignação, suspensão ou aposentadoria antes de tornar-se órfão |
| R4 | Documentar finalidade pretendida, usuários, não usuários afetados, usos excluídos e escala previsível | declaração do caso de uso, análise de stakeholders, grupos afetados, ambiente, volume, premissas | avaliação e monitoramento cobrem a população efetivamente afetada |
| R5 | Enumerar toda dependência governada e a authority herdada por cada conexão | blueprint referenciando registros aprovados de modelo, fonte, ferramenta, integração e fornecedor | dependência não registrada/incompatível impede promoção; mudança material dispara reavaliação |
| R6 | Manter identidade consistente entre ambientes separando configuração, authority e estado | ambiente, release, hashes de artefato, configuração implantada, estado, fonte de promoção, alvo de rollback | operadores reconciliam estado desejado/observado e não confundem aprovação de teste com produção |
| R7 | Capturar problema, mecanismo, owner e necessidade de decisão antes do design | registro de intake com finalidade, baseline, usuários, afetados, dados, ações, alternativas, urgência | solicitação encaminhada às decisões de adequação, risco e portfólio sem ignorar ownership/escopo |
| R8 | Comparar agente com alternativas determinísticas e não técnicas | alternativas, necessidade de autonomia, incerteza, benefício esperado, custo de falha, decisão arquitetural | agente prossegue somente com capacidade distintiva necessária e ônus de governança aceito |
| R9 | Definir resultado falseável, baseline pré-mudança e contrafactual crível | owner da métrica, população, fórmula, alvo, fonte, confounders, custo, threshold de decisão | authority distingue criação/adoção/qualidade/resultado e interrompe quando evidência não suporta expansão |
| R10 | Priorizar portfólio por evidência de valor, risco, dependência, reuso e capacidade | pontuações comparáveis, capacidades duplicadas, serviços compartilhados, restrições, decisão, data de revisão | authority financia/pausa/mescla/restringe/aposenta e decisão propaga-se ao lifecycle |
| R11 | Atribuir consumo e custo total a agente, owner, ambiente e resultado | custo unitário, orçamento, quota, previsão, variância, alocação compartilhada, anomalia, otimização | threshold violado dispara throttling/revisão; custo separado de valor |
| R12 | Medir adoção pretendida, uso significativo e workaround inseguro por população-alvo | população elegível, uso ativo, conclusão, abandono, suporte, feedback, limitações de amostragem | owner distingue disponibilidade de adoção útil e muda treinamento/design/rollout por evidência |
| R13 | Aplicar governança equivalente a agentes comprados, configurados, SaaS, low-code e de fornecedores | fornecedor, fronteira de serviço, deveres contratuais, evidências fornecidas, subprocessadores, saída, owner, lacunas | terceirização não remove accountability; alegação sem evidência não satisfaz controle bloqueante |
| R14 | Tornar a capacidade de inventário/portfólio autoritativa para todos os agentes em escopo | registry/portfólio com owner, finalidade, usuários, dependências, estado, hipótese de valor, data da evidência, qualidade dos dados | reconciliação detecta ativos sem owner/ausentes e authority decide financiar/reusar/restringir/consolidar/aposentar |
6. Decision gates¶
- Descoberta: o baseline só é aceito com data de corte, cobertura mensurável por fonte, gaps registrados com owner e distribuições de status e confidence declaradas separadamente. Cobertura desconhecida é gap crítico, não ausência de risco.
- Registry: nenhum agente é construído em ambiente compartilhado ou publicado sem
agent_id, owner, tier e admissibilidade registrados. Nenhum agente permanece em produção sem stage/operational state coerentes ou com quality finding crítico aberto. - Portfólio: nenhum item entra no portfólio financiado sem problema, owner, baseline (ou plano explícito para obtê-lo), value hypothesis, costs, metrics e sunset criteria.
7. Artefatos, evidências, métricas e failure modes¶
Artefatos - Agent Estate Inventory com confiança e data de corte; - Agent Registry schema e exemplo estruturado; - Agent Blueprint schema e exemplo estruturado; - template de registry e template de blueprint; - Agent Estate Forecast em três cenários, com mix de risco; - Manual Bottleneck Register priorizado; - Agent Use-Case Portfolio.
Evidências
- registro autoritativo com owners, tier e estado por agente;
- histórico de reconciliação entre registry e plataformas de origem;
- baseline com data de corte e distribuição de confiança;
- backlog de remediação de objetos probable e suspected;
- blueprint versionado por release, com evidence refs;
- relatórios de drift entre desired state e runtime;
- business case, metric definitions, cost model;
- adoption/quality/outcome reports e portfolio decisions.
Métricas
- agentes descobertos sem owner (unmanaged) e tempo até remediação;
- cobertura do registry contra fontes independentes;
- campos obrigatórios vazios por tier; referências quebradas;
- drift material entre blueprint e runtime;
- proporção confirmed/probable/suspected ao longo do tempo;
- shadow agents encontrados por ciclo de redescoberta;
- desvio entre forecast e estate real; gargalos manuais eliminados por trimestre;
- itens sem business owner ou baseline; duplicated capabilities;
- custo por outcome e por tier; time-to-decision para corrigir ou aposentar.
Failure modes - registry como planilha mestre que ninguém reconcilia; - taxonomia derivada de produto em vez de comportamento; - inventário completo sem quality rules — lista bonita, controle zero; - blueprint gigante sem consumidor automatizado; - sobrescrever o blueprint aprovado ao publicar nova versão; - tratar descoberta como projeto de inventário pontual; - descartar sinais incertos para não "poluir" a métrica; - contar versões e instâncias como agentes distintos; - forecast apresentado como previsão contratual; - projetar volume sem projetar mix de risco; - automatizar decisões antes de estabilizar a policy; - valor inferido por número de agentes; - horas "economizadas" sem medir qualidade; - ROI com adoção projetada como fato; - ignorar custo de assurance e suporte; - manter agente porque já foi construído; - atribuir outcome ao agente sem baseline; - premiar volume e criar agent sprawl; - esconder externalities negativas.
Acceptance criteria¶
- todas as decisões deste capítulo possuem authority, owner e evidência recuperável;
- requisitos aplicáveis estão ligados ao catálogo de controles e ao método de verificação;
- exceções têm escopo, justificativa, compensating controls, expiry e decisão residual;
- controles de build time e runtime são distinguidos e exercitados quando aplicáveis;
- mudanças materiais reabrem avaliação, aprovação e evidência;
- nenhuma alegação de conformidade, eficácia ou valor excede a evidência observada.