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04 — Risco, impacto e compliance

Visão geral

Todo agente de IA carrega risco. A pergunta não é se ele é arriscado, mas quão arriscado é, para quem, e o que a organização está disposta a aceitar. Este capítulo estabelece como responder essas três perguntas de forma proporcional: quanto maior o risco, maior o rigor exigido — sem transformar governança em burocracia para casos simples.

O capítulo separa dois conceitos que costumam ser confundidos e que devem ser decididos separadamente:

  • Risco (tier T1–T4): quão severo pode ser o impacto de um agente — orienta os controles, as evidências e a autoridade de aprovação.
  • Admissibilidade: se o uso pode operar, e sob quais condições — permitted, conditional, restricted ou prohibited.

Tratar ou aceitar risco não transforma uso proibido em permitido. E admissibilidade favorável não demonstra risco baixo. As duas dimensões coexistem no mesmo registro, mas respondem perguntas diferentes.

O fluxo completo do capítulo:

Contexto e uso pretendido → identificar impactos e ameaças → classificar tier (T1–T4)
→ decidir admissibilidade → selecionar controles → testar → residual risk
→ decisão pela authority certa → operar e monitorar → reavaliar quando mudar

Leia as seções 1–3 para entender; use a seção 4 como checklist de implementação e auditoria.

1. Como classificar risco

1.1 Risco não é um número isolado

Classificação de risco apoia consistência, mas não substitui contexto. A postura de risco combina múltiplos fatores ajustados por controles e detectabilidade:

Risk posture = impacto × likelihood × exposição × autonomia
               × capacidade de ação × irreversibilidade
               ajustado por controls e detectability

Não existe fórmula universal. O score apoia a decisão; a decisão preserva contexto e rationale.

As dimensões que alimentam a avaliação:

Dimensão Pergunta
finalidade qual decisão, processo ou direito pode ser afetado?
alcance quantas pessoas, sistemas, regiões ou transações?
dados sensibilidade, qualidade, origem e obrigações?
autonomia recomenda, prepara, executa, aprova ou delega?
capability read, write, action, workflow, code ou efeito físico?
interconectividade quantos tools, agents, APIs e downstream systems?
reversibilidade o efeito pode ser desfeito com custo e tempo aceitáveis?
detectability a falha aparece antes do impacto?
exposição interno, externo, público ou adversarial?
vulnerabilidade pessoas ou grupos podem sofrer impacto desproporcional?
contexto legal há obrigação setorial, regional, contratual ou trabalhista?
novidade há evidência operacional comparável ou elevada incerteza?

1.2 Tiers: T1–T4 é a taxonomia canônica

T1–T4 é a taxonomia de risco/criticidade deste framework. Uma organização pode mapear classificações locais, regulatórias ou legadas, desde que preserve os critérios, documente divergências e aplique o caminho decisório mais restritivo quando houver ambiguidade.

Tier Perfil Exemplo de controle
T1 — baixo sugestão interna, dados não sensíveis, reversível owner, registry, testes básicos e logging
T2 — moderado influência operacional limitada ou dados internos blueprint, reviewer independente, evals e monitoring
T3 — alto escrita/ação, dados sensíveis, alto alcance ou impacto domain approvals, threat/impact assessment, kill switch e attestation
T4 — crítico efeito legal, financeiro, safety-critical ou difícil de reverter authority executiva, dual control, challenge com segregation formal e containment contínuo

Armadilha comum: classificar risco apenas pelo número de usuários, ou tratar "PoC" como sinônimo de baixo risco. Um agente para 5 usuários que executa pagamentos é mais crítico que um para 5.000 que só resume documentos internos.

1.3 Red flags e escaladores: o fator crítico não pode ser diluído

Red flags elevam a criticidade independentemente do score. Eles existem porque uma média esconde um fator crítico: um caso com dez respostas benignas e uma destrutiva não é um caso médio. Qualquer red flag retira o caso do fast path. A coluna de criticidade é piso, não teto — o scoring pode chegar mais alto, nunca mais baixo.

Red flag Criticidade mínima Efeito adicional
dados restritos enviados a provedor externo T4 admissibilidade restricted por padrão: default deny, com exceção explícita, authority e expiry
descoberta irrestrita de tools ou MCP externos em runtime T4 admissibilidade restricted por padrão; o conjunto de capacidades deixa de ser conhecido no momento da aprovação
execução de código ou comandos arbitrários T4 mediação obrigatória e isolamento; sem allowlist, a capability é ilimitada por construção
deleção irreversível ou mudança destrutiva T4 dual control onde aplicável; contenção testada antes do release
modificação de identidade, permissão ou secrets T3 o agente passa a poder ampliar o próprio privilégio; segregação e logging forense
acesso privilegiado ou administrativo T3 JIT e monitoramento contínuo; privilégio permanente exige justificativa própria
decisão sobre emprego, crédito, elegibilidade ou acesso a serviço T3 impact assessment formal obrigatório e canal de contestação, mesmo em caso tecnicamente simples
processo safety-critical ou de tecnologia operacional T3 domain review do processo físico; failure containment exercitado
execução de transação financeira material T3 limite por transação e por período, reconciliação e rollback testado
comunicação pública autônoma e em escala, sem revisão humana T3 as três condições somadas — pública, autônoma e em escala — é que fazem o escalador; separadas, cada uma é menos grave

Duas observações sobre admissibilidade: red flags governam criticidade; apenas os dois primeiros carregam um default de admissibilidade, porque neles a restrição é do uso em si, não da severidade do impacto. E restricted por padrão não significa proibido: significa que operar exige exceção registrada, e não silêncio.

A lista de red flags é a norma; o pre-screen é o instrumento. Se divergirem, a lista prevalece e o instrumento é corrigido — nunca o contrário.

1.4 Fast path de T1: automatizar o simples, sem eliminar controle

Em estates com alto volume de casos simples, exigir revisão humana caso a caso transforma a governança em gargalo — e a organização passa a contorná-la. O fast path é a rota automatizada de T1.

O fast path elimina revisão manual caso a caso. Ele não elimina controle. Permanecem obrigatórios:

  • descoberta e registro com agent_id e owner atribuído;
  • logging básico e telemetria mínima recuperável;
  • uso restrito a fontes de dados e tools já aprovadas;
  • termos de uso aceitos pelo owner;
  • evidência proporcional e recuperável da classificação.

A saída do fast path é automática: qualquer red flag, escalador ou impact trigger remove o agente da rota rápida e exige a rota do tier resultante. A entrada é que precisa ser conquistada — na dúvida, o caso não entra.

Materiais externos que usem T0 convergem para T1: T0 e T1 externos mapeiam para o T1 canônico. Restricted do guia v3.4 mapeia para admissibilidade, não redefine T4.

1.5 O mapa de decisão: como risco, RAI e aprovação se encadeiam

A dificuldade mais comum neste domínio é tratar scoring, Responsible AI e aprovação como controles concorrentes. Eles não competem — funcionam em sequência: o pre-screen coleta fatos; o scoring estima o risco base; os red flags corrigem fatores que não podem ser diluídos; o tier define a intensidade mínima de governança; o impact trigger identifica impactos sobre pessoas; o RAI impact assessment aprofunda esses impactos quando acionado; os domain reviews tratam controles especializados; e o publication gate apenas verifica se as evidências exigidas estão completas.

Fluxo mental recomendado:

PRE-SCREEN → SCORING → RED FLAGS → TIER + ADMISSIBILIDADE
  → IMPACT TRIGGER → RAI IMPACT ASSESSMENT (quando acionado)
  → DOMAIN REVIEWS (por gatilho) → PUBLICATION GATE

Uma etapa não substitui a anterior, e nem todas exigem trabalho manual. A matriz abaixo é o mapa de calor operacional — lida horizontalmente por tier e verticalmente por mecanismo, mostra quanta formalidade cada combinação exige:

Mecanismo T1 T2 T3 T4
Pre-screen + scoring automatizável (fast path) obrigatório formal formal + enhanced (identifica uso restrito)
Red flags sempre checar sempre checar sempre checar críticos / default deny
Impact trigger screen obrigatório obrigatório obrigatório obrigatório se exceção for analisada
RAI impact assessment somente se trigger formal se trigger formal/aprofundado quando trigger obrigatório se exceção envolver impacto
Domain reviews por trigger formais por trigger multidisciplinares autoridade máxima + especialistas
Publication gate owner + policy gate (automatizável) formal evidence gate formal + assurance sem rota normal de publicação

Legenda: T1 = leve/automatizável · T2 = obrigatório ou condicional · T3 = formal/enhanced · T4 = restrito/default deny.

T4 representa default deny: não existe rota normal de publicação. Se a organização admitir exceção, a rota é explícita, executiva e altamente controlada — com authority máxima, registro da exceção, expiry e monitoramento contínuo.

A ferramenta de classificação operacionaliza este mapa: ela aplica as sete dimensões de scoring, os red flags e o impact trigger para produzir tier, admissibilidade e a lista de reviews acionadas. A lógica normativa vive aqui; a ferramenta executa e registra.

1.6 Admissibilidade: uma dimensão separada do risco

Risk tier responde quão severo pode ser o impacto. Admissibilidade responde se e sob quais condições o uso pode operar. Um T1 pode ser proibido por finalidade ou obrigação legal; um T4 pode ser admitido quando authority, controles e evidências compatíveis existirem.

Admissibilidade Regra de decisão
permitted pode operar dentro do blueprint e dos controls aprovados
conditional pode operar somente enquanto condições documentadas forem satisfeitas
restricted default deny; exige exceção explícita, temporária, com authority e expiry
prohibited não entra nem permanece em produção no escopo avaliado

Tier e admissibilidade são registrados juntos no Agent Risk Record, no Registry, no Blueprint e no release evidence manifest. Mudança em qualquer dimensão é mudança material.

O piso de controles exigido por tier para entrar e permanecer em produção está no Minimum Production Bar.

1.7 Regras de uso: o que é permitido, o que exige aprovação, o que é proibido

As regras abaixo são simples e objetivas, aplicáveis em todos os níveis (Grupo/Segmento/Local) e a qualquer plataforma aprovada. Elas servem de referência para self-assessment e auditoria. Fornecedores e parceiros que desenvolvem ou operam agentes em nome da empresa devem cumprir integralmente esta política e seus anexos.

Permitido (sempre): - usar apenas dados e sistemas com autorização explícita; - operar com HITL nos pontos de decisão; - registrar as ações do agente em log imutável; - exibir identificação visível ("Governed Agent").

Exige aprovação: - acesso a dados pessoais/sensíveis (DPIA quando aplicável); - integração com sistemas críticos; - uso em decisões que impactam KPIs críticos (produção, segurança, qualidade, OWCR etc.).

Proibido: - agentes sem owner designado; - ações irreversíveis sem HITL; - armazenar dados pessoais fora de repositórios aprovados; - contornar controles de segurança, jailbreaks ou uso não autorizado de dados; - usar plataformas, modelos ou ferramentas de IA de terceiros sem aprovação formal da plataforma e aderência total a esta política.

Armadilha comum: zerar risco porque existe approval. Aprovação não reduz risco por si; ela registra que o risco foi avaliado e aceito pela autoridade certa. Sem expiry e revisão, a "aceitação" vira dívida permanente.

2. Avaliação de impacto (Responsible AI)

2.1 O que é Responsible AI (e o que não é)

Responsible AI não é sinônimo de content filter. É a aplicação verificável de princípios, assessments, design choices, controles, avaliações, transparência e resposta. O objetivo: avaliar e controlar impactos em pessoas, grupos, direitos e sociedade ao longo do lifecycle, preservando accountability humana e independência suficiente entre build e assurance.

O assurance plane reúne as especialidades que testam se o sistema atende aos requisitos e ao contexto aprovado: Responsible AI, privacy e data protection, security e safety, legal e compliance, accessibility e inclusão, model/system evaluation e independent review quando exigido. Ele complementa o control plane — registry, postura técnica e telemetria não demonstram sozinhos tratamento adequado de impacto.

Os princípios de avaliação orientam perguntas; não funcionam como checklist universal:

  • validade e confiabilidade: desempenho suficiente no contexto real;
  • safety: danos previsíveis identificados e mitigados;
  • security e resilience: resistência e recuperação;
  • accountability e transparência: owners, decisões e comunicação;
  • explicabilidade proporcional: informação útil para decisão e contestação;
  • privacy: finalidade, minimização e direitos;
  • fairness: impactos e desempenho entre grupos relevantes;
  • human agency: supervisão, contestação e limites de automação.

2.2 Impact assessment: as 10 perguntas

A avaliação de impacto deve responder:

  1. qual objetivo e qual alternativa não-IA foram considerados;
  2. quem usa, quem é afetado e quem pode ser vulnerável;
  3. quais decisões ou direitos podem ser influenciados;
  4. quais dados, proxies e representações são usados;
  5. quais harms, benefits e distributional effects são plausíveis;
  6. onde automation bias, over-reliance ou contestability importam;
  7. quais métricas e slices são materialmente relevantes;
  8. quais human controls e redress mechanisms existem;
  9. quais limitações precisam ser comunicadas;
  10. qual residual impact permanece e quem pode aceitá-lo.

2.3 Tiering de assurance: quanto rigor por tier

"RAI mínimo" é a evidência mínima esperada naquele tier, não um teto. Um caso T1 que dispara impact trigger executa o assessment formal do mesmo jeito — o tier determina proporcionalidade, o trigger determina obrigatoriedade.

Tier Assurance mínima Quando evoluir para assessment formal Efeito na aprovação
T1 — baixo intended use, limitations, basic quality e owner review qualquer sim no impact trigger screen; uso por população vulnerável; reclamação recorrente owner aprova dentro da rota automatizada; RAI não entra na fila
T2 — moderado impact assessment, slices relevantes e user transparency decisão que influencia direitos, oportunidades ou acesso a serviço; dado pessoal sensível; proxy de atributo protegido aprovação condicionada às mitigações registradas e ao residual impact aceito por quem responde pelo processo
T3 — alto domain review, adversarial/edge testing, human oversight e monitoring disparidade material entre grupos; automation bias observado; mudança de população ou de contexto de uso RAI é authority de veto no gate; sem oversight design e evaluation por slices, o release não passa
T4 — crítico challenge com segregation formal, contestability, continuous review e executive authority sempre — em T4 o assessment formal é a linha de base, não uma evolução aprovação executiva com residual impact explícito; ausência de contestability é bloqueador, não finding

2.4 Impacto em pessoas: avaliação por categoria

A avaliação de impacto se aplica a cada categoria de efeito sobre pessoas, grupos, direitos e ambiente. O método é o mesmo; o que muda é a profundidade conforme o contexto e o tier. As categorias: efeitos sobre posição legal e oportunidades de vida; segurança física e psicológica; direitos humanos e direitos fundamentais; efeitos sociais e ambientais; acessibilidade e populações vulneráveis.

Para cada categoria, registre: população afetada, via de impacto, severidade, probabilidade, distribuição, mitigação, impacto residual, consulta e owner. Impactos materiais são testados com evidência do contexto afetado; impacto inaceitável não resolvido bloqueia implantação ou expansão.

2.5 Fairness: uma métrica agregada pode esconder falha grave

  • selecionar grupos/slices com base em contexto e impacto, não apenas disponibilidade;
  • comparar performance e harms com baseline adequado;
  • registrar incerteza e tamanho de amostra;
  • investigar proxies e feedback loops;
  • definir threshold, owner e ação para disparidade;
  • reavaliar após mudança material ou drift.

Concluído quando: desempenho agregado não pode esconder uma fatia material reprovada e dano não resolvido é escalonado à authority adequada.

2.6 Transparência, contestabilidade e supervisão humana

Transparência. A comunicação adequada pode incluir: que IA está sendo usada; finalidade e limites; dados relevantes e fontes quando aplicável; grau de automação; necessidade de revisão humana; como reportar erro, contestar ou obter suporte; owner e canal de responsabilidade. Transparência não exige expor secrets, dados pessoais ou detalhes que aumentem abuso — precisa ser útil para a pessoa afetada.

Human agency. Quando o sistema influencia decisão material: a pessoa entende o papel da IA; um humano possui autoridade real, não ritual; há canal de contestação e correção; revisão humana recebe tempo, contexto e competência; o sistema registra override e outcome; automation bias é monitorado.

Supervisão humana. O humano deve estar posicionado em um ponto de decisão onde a intervenção permaneça oportuna, informada e tecnicamente eficaz — e conseguir detectar, interromper, corrigir e escalonar uma falha representativa em vez de carimbar uma ação irreversível.

2.7 Privacidade, propriedade intelectual e integridade da informação

Privacidade e proteção de dados. Estabelecer finalidade, base legal, minimização, tratamento de direitos, retenção e restrições de transferência para dados pessoais. Reter categorias de dados, titulares, origem, finalidade de processamento, acesso, fluxo, DPIA ou equivalente, testes e evidência de exclusão. Concluído quando: caminhos de dados não autorizados falham em teste, direitos dos titulares são operáveis e mudança material de processamento reabre a avaliação.

Propriedade intelectual. Verificar direitos e restrições para treinamento, recuperação, prompts, saídas, código e conteúdo gerado: licença da fonte, permissão, atribuição, restrição de uso, rota de takedown, filtro ou controle e alegação não resolvida. Concluído quando: conteúdo sem licença ou incompatível é bloqueado ou removido e obrigações a jusante permanecem rastreáveis.

Integridade da informação. Definir factualidade aceitável, qualidade de fonte e limites de conteúdo prejudicial para o contexto de uso: categorias de afirmação, fontes autoritativas, conjunto de teste, verificações de citação, thresholds, exemplos de falha e resposta. Concluído quando: alegações materiais sem suporte são detectadas ou divulgadas e falha acima do threshold bloqueia ou restringe o uso.

2.8 Segurança, abuso e risco de terceiros

Segurança e risco de abuso. Modelar ameaças através das fronteiras de identidade, prompt, dados, ferramenta, runtime e supply chain e testar caminhos materiais de abuso: threat model, cenários, pré-condições de ataque, evidência de teste, descobertas, mitigações, risco residual e resultado de reteste. Concluído quando: caminhos de ataque de alto impacto são prevenidos ou contidos e descobertas bloqueantes abertas impedem o release.

Risco de terceiros e cadeia de valor. Governar fornecedores e dependências a jusante por due diligence, contrato, monitoramento e planejamento de saída: serviço, owner, criticidade, evidência, obrigações, concentração, incidentes, subprocessadores, fallback e teste de saída. Concluído quando: falha do fornecedor dispara a contenção ou fallback acordado e a accountability permanece com a organização.

Security, data e compliance (GDPR/LGPD e SOX/ITGC). Agentes podem processar dados pessoais, sensíveis e confidenciais e interagir com sistemas sujeitos a controles internos. Requisitos mínimos: access controls (RBAC/ABAC), segregação de funções e least privilege; criptografia em trânsito e em repouso, DLP, SIEM e gestão de vulnerabilidades; princípios da lei aplicável (GDPR/LGPD), registro de processamento, DPIA, direitos dos titulares e DPO; SOX/ITGC com trilhas de auditoria, aprovações formais e segregação para ações críticas. Modelos e dados usados por agentes devem ser avaliados quanto a viés, qualidade e adequação ao uso pretendido antes da publicação e sempre que atualizados.

2.9 Self-assessment obrigatório

Para escalar agentes com segurança, todo agente passa por avaliação padronizada antes de ser liberado, expandido ou significativamente alterado. O Self-Assessment é um formulário de 1 página, obrigatório antes de criar/publicar um agente, que funciona como triagem e registro de accountability — e como gatilho de escalonamento: quando há red flags, a aprovação segue níveis mais altos conforme a Matriz de Aprovação.

Campos mínimos: objetivo e casos de uso; justificativa do uso de IA; dados (tipos/sensibilidade, bases, owners); permissões e escopo de ação; autonomia e HITL (pontos de controle); interconexões (sistemas/APIs); AI Impact Assessment (para alto risco); usuários/alcance (número e perfis); impacto em KPIs; riscos (privacidade, SOX, reputação etc.); controles (auditoria, rate-limit, budget cap); evidência de feedback do usuário (quando aplicável); owners e plano de sunset.

2.10 Risk assessment por blast radius

Agentes diferem de aplicações tradicionais porque acessam múltiplas fontes de dados, acionam tools e operam em escala (usuários, sistemas e volume). O método padronizado de avaliação do "blast radius" considera: dados acessados, privilégios, canais de saída, capacidade de ação e número de usuários. O resultado orienta o nível de aprovação, os controles mínimos e o regime de monitoramento/custo aplicável.

3. Tratamento, aceite e reavaliação

3.1 Tratamento de risco e compensating controls

Selecione tratamentos que reduzam o risco identificado e documente por que a exposição residual é aceitável ou permanece bloqueada: vínculo risco-controle, owner do controle, estado de implementação, teste de eficácia, limite compensatório e classificação residual. Concluído quando: o tratamento passa no teste de eficácia e um controle compensatório expira junto com a condição que o justificava.

3.2 Decisão de risco residual: quem pode aceitar

O risco residual após tratamento verificado deve ser apresentado à authority empoderada para aquela exposição: risco inerente, evidência de tratamento, classificação residual, incerteza, condições de aceite, aprovador e expiração.

Regras duras: - o time de entrega não pode auto-aceitar risco residual material; - o aceite não sobrepõe admissibilidade ou lei; - risco não pode ser "aceito" pelo technical owner se o impacto pertence ao negócio, a pessoas ou a obrigação de outro domínio; - risk acceptance não transforma uso prohibited em permitido; para uso restricted, a exceção é registro distinto, temporário e revogável.

3.3 Mudança material: quando reclassificar

Reclassificar quando muda: finalidade ou população; modelo ou provider relevante; dados, connector ou região; identidade, scope ou tool; autonomia ou capability; volume, alcance ou criticidade; UI/approval flow; incident, finding ou external threat; obrigação legal ou risk appetite.

O reassessment recomeça do ponto afetado, não do zero. Reassessment integral por padrão é caro, e o que é caro deixa de ser feito.

3.4 Crosswalk regulatório e de normas

Mapear obrigações e normas somente onde uma fonte primária ou adequadamente atribuída suporta a relação: fonte, versão, cláusula ou disposição, artefato mapeado, tipo de relação, cobertura, ressalva e revisor. O crosswalk distingue alinhamento de compliance e não inventa mapeamentos para texto proprietário inacessível. Este framework usa NIST AI RMF e o AI Act europeu como referências de alinhamento, sem afirmar equivalência regulatória.

4. Referência normativa

Condições mínimas que devem ser verdadeiras em cada ponto do fluxo de risco. Use como checklist de implementação e auditoria; as seções 1–3 explicam o porquê de cada item.

# Obrigação Evidência mínima Concluído quando
R1 Aprovar método repetível de gestão de risco (contexto, identificação, análise, tratamento, residual, revisão) método com escalas, tiering, admissibilidade, qualidade de evidência, authority, incerteza e gatilhos dois avaliadores qualificados alcançam resultados consistentes; evidência ausente não vira "risco baixo"
R2 Analisar contexto real de decisão, usuários, pessoas afetadas, escala, autonomia, ambiente e alternativa não-IA usos pretendidos e excluídos, premissas, dependências, grupos afetados, consequências de falha, corte de evidências risco, avaliação e supervisão baseiam-se no contexto operacional, não em descrição genérica de modelo
R3 Identificar uso indevido previsível, abuso, viés de automação, expansão de escopo e interação emergente antes do release ator de ameaça ou usuário, cenário, pré-condição, impacto, detecção, controle preventivo, resposta, exposição residual cenários materiais testados ou restritos; uso indevido observado alimenta controles e reavaliação
R4 Classificar com critérios aprovados, escaladores obrigatórios e resultado mais severo resultados por critério, red flags, rationale, confiança, revisor e rota resultante mesma evidência produz encaminhamento consistente; sub-classificação é detectada
R5 Definir red flags não discricionárias que elevem revisão, controles ou authority definição do gatilho, fonte de detecção, tier mínimo, revisores exigidos, ações bloqueadas, disposição flag acionada não é dispensada pelo solicitante e permanece aberta até disposição autorizada
R6 Classificar usos como permitted, conditional, restricted ou prohibited independentemente do risco origem da regra, condições, uso afetado, rationale, authority, expiração, workarounds proibidos uso proibido não prossegue por compensating controls; uso conditional não opera após expirar
R7 Avaliar efeitos benéficos e adversos plausíveis sobre pessoas, grupos, direitos e ambiente população afetada, via de impacto, severidade, probabilidade, distribuição, mitigação, residual, consulta, owner impactos materiais testados com evidência do contexto; impacto inaceitável não resolvido bloqueia implantação
R8 Estabelecer finalidade, base legal, minimização, direitos, retenção e restrições de transferência para dados pessoais categorias, titulares, origem, finalidade, acesso, fluxo, DPIA ou equivalente, testes, exclusão caminhos não autorizados falham em teste; direitos dos titulares operáveis; mudança material reabre avaliação
R9 Definir danos de fairness específicos do contexto, grupos, fatias e disparidade aceitável antes de testar rationale do grupo, métricas, adequação da amostra, thresholds, resultados, incerteza, mitigações, residual desempenho agregado não esconde fatia material reprovada; dano não resolvido escalona à authority
R10 Fornecer aviso oportuno, limitações materiais, owner accountable e rota de contestação/reparação aviso aprovado, público, canal, explicação, SLA de reclamação, escalonamento, resultado, remediação pessoas afetadas identificam a interação, alcançam humano responsável e obtêm revisão/reparação no alvo
R11 Definir explicação necessária para usuários, afetados, operadores e revisores no contexto real público, decisão, conteúdo da explicação, método, limites de fidelidade, momento, evidência de compreensão explicação suporta ação/contestação sem revelar informação protegida nem exagerar certeza
R12 Posicionar humano competente onde a intervenção seja oportuna, informada e tecnicamente eficaz gatilho, informações apresentadas, authority, tempo de resposta, override, carga, treinamento, teste humano detecta, interrompe, corrige e escala falha representativa em vez de carimbar ação irreversível
R13 Verificar direitos e restrições para treinamento, recuperação, prompts, saídas, código e conteúdo licença, permissão, atribuição, restrição de uso, takedown, filtro, alegação não resolvida conteúdo sem licença bloqueado/removido; obrigações a jusante rastreáveis
R14 Definir factualidade aceitável, qualidade de fonte e limites de conteúdo prejudicial categorias de afirmação, fontes autoritativas, conjunto de teste, citações, thresholds, falhas, resposta alegações materiais sem suporte detectadas/divulgadas; falha acima do threshold bloqueia uso
R15 Modelar ameaças por fronteira e testar caminhos materiais de abuso threat model, cenários, pré-condições, evidência de teste, descobertas, mitigações, residual, reteste caminhos de alto impacto prevenidos/contidos; descobertas bloqueantes abertas impedem release
R16 Governar fornecedores por due diligence, contrato, monitoramento e saída serviço, owner, criticidade, evidência, obrigações, concentração, incidentes, subprocessadores, fallback, teste de saída falha do fornecedor dispara contenção/fallback acordado; accountability permanece com a organização
R17 Selecionar tratamentos que reduzam risco e documentar residual vínculo risco-controle, owner, estado, teste de eficácia, limite compensatório, classificação residual tratamento passa no teste de eficácia; compensatório expira com a condição que o justificava
R18 Apresentar residual risk à authority empoderada para aquela exposição risco inerente, evidência de tratamento, residual, incerteza, condições de aceite, aprovador, expiração time de entrega não auto-aceita residual material; aceite não sobrepõe admissibilidade ou lei
R19 Mapear obrigações e normas somente com fonte primária ou atribuída fonte, versão, cláusula, artefato mapeado, tipo de relação, cobertura, ressalva, revisor crosswalk distingue alinhamento de compliance; não inventa mapeamentos
R20 Definir mudanças materiais e eventos que reabrem risco gatilho, fonte de detecção, ativos/evidências impactados, controle provisório, owner, vencimento, disposição ativos acionados não dependem indefinidamente de aprovação anterior

5. Playbook: fluxo risco → impacto → aprovação

Classificação, impact assessment e aprovação não são três aprovações concorrentes. Resolvem problemas diferentes e operam em sequência:

  1. Pre-screen no intake com perguntas objetivas sobre dados, autonomia, ações, pessoas afetadas e alcance. Use o template de risk pre-screen.
  2. Calcular o risco base e aplicar os red flags. O score apoia consistência; os red flags impedem que um fator crítico seja diluído por uma média.
  3. Definir o tier preliminar e a admissibilidade. Tier determina proporcionalidade; admissibilidade determina se o uso é permitido, condicionado, restrito ou proibido.
  4. Selecionar os controles obrigatórios correspondentes, conforme o Minimum Production Bar.
  5. Aplicar o impact trigger screen. O agente influencia direitos, oportunidades, acesso a serviços, decisões sobre pessoas, segurança física, comunicação pública ou processo regulado? Se sim, executa-se o impact assessment formal — mesmo em caso tecnicamente simples.
  6. Acionar domain reviews apenas quando relevantes. Privacidade por dados pessoais; segurança por ferramentas e privilégio; dados por fontes; arquitetura por mudança de pattern; jurídico por obrigação aplicável. Review acionada por regra fixa vira fila.
  7. Registrar riscos, admissibilidade, mitigações, residual risk e owner. Nenhuma review aprovada deve existir sem residual risk explícito e sem a authority compatível com o tier e a admissibilidade.
  8. Compilar o evidence pack. O gate de publicação verifica a evidência exigida pelo tier — ele não refaz as reviews. Ver evidence pack por tier.
  9. Após mudança material, o reassessment recomeça do ponto afetado, não do zero. Reassessment integral por padrão é caro, e o que é caro deixa de ser feito.

6. Risk register, evidências, métricas e antipatterns

Risk register mínimo: risk ID e categoria; scenario e affected parties; source/cause; likelihood, impact e uncertainty; existing controls e eficácia observada; residual risk; admissibilidade, rationale, condições ou exception/expiry; owner e decision authority; treatment, due date e status; indicators e escalation threshold; evidências; review trigger e expiry.

Categorias de risco: business/value e uso inadequado; fairness e impacto em pessoas; privacy e data protection; security e adversarial misuse; safety e harmful content; reliability, quality e hallucination; identidade, autorização e excessive agency; tool/MCP e supply chain; operações, resilience e incident response; jurídico, regulatório e propriedade intelectual; reputação, comunicação e transparência; concentração, vendor e systemic risk; environmental e resource consumption quando material.

Evidências: context map; impact/threat assessments; tier rationale; control mapping; test results; residual risk decision; runtime indicators; incidents e remediação; attestation e reclassification history.

Métricas: riscos sem owner ou due date; findings e exceptions vencidos; tier changes após incidentes; controls sem evidence de eficácia; tempo entre trigger e reavaliação; residual risks sem authority adequada; concentração por provider, modelo ou tool; incidentes por categoria e recurrence.

Antipatterns: - score único sem narrativa; - classificar risco apenas pelo número de usuários; - usar "PoC" como sinônimo de baixo risco; - copiar thresholds de outro contexto; - zerar risco porque existe approval; - aceitar risco sem expiry; - medir apenas likelihood e impact, ignorando detectability e reversibilidade; - congelar classificação após release; - tratar Responsible AI como aprovação final; - usar princípios sem controles ou evidências; - medir fairness sem affected-party analysis; - confundir explicação técnica com comunicação útil; - usar humano como rubber stamp; - não oferecer contestação; - inferir ausência de impacto porque não houve reclamação; - deixar o builder aceitar sozinho residual impact.

Decision gate

Sistemas com impacto material em pessoas não passam pelo release gate sem: impact assessment, oversight design, evaluation por slices relevantes, transparency plan e authority compatível com o tier. Sistemas com red flag material não passam sem residual risk explícito aceito pela authority correta. Nenhuma alegação de conformidade, eficácia ou valor excede a evidência observada.

Acceptance criteria

  • todas as decisões deste capítulo possuem authority, owner e evidência recuperável;
  • requisitos aplicáveis estão ligados ao catálogo de controles e ao método de verificação;
  • exceções têm escopo, justificativa, compensating controls, expiry e decisão residual;
  • controles de build time e runtime são distinguidos e exercitados quando aplicáveis;
  • mudanças materiais reabrem avaliação, aprovação e evidência;
  • nenhuma alegação de conformidade, eficácia ou valor excede a evidência observada.

Provenance (machine-readable)

Os marcadores abaixo preservam a rastreabilidade das unidades da fonte e não alteram o significado normativo. São invisíveis no site.